O AGRICULTOR

 

DINÂMICA DAS POPULAÇÕES DE AFÍDEOS (HOMOPTERA: APHIDOIDEA) E SEUS PARASITÓIDES (HYMENOPTERA: APHIDIIDAE) EM CULTURA PROTEGIDA DE PIMENTO

VALÉRIO, ELSA

CECÍLIO, A. ; ILHARCO, F. A.    

MEXIA, A.

SAPI – ISA

Estação Agronómica Nacional

SAPI - ISA

Tapada da Ajuda

Departamento de Entomologia

Tapada da Ajuda

1399 Lisboa, Portugal

2780 Oeiras, Portugal

1399 Lisboa, Portugal

RESUMO

Com o objectivo de avaliar a dinâmica das populações de afídeos e o impacte dos parasitóides autóctones realizou-se um ensaio em cultura protegida de pimento (Abril/Setembro 1996), na região de Torres Vedras (Sta Cruz). Observaram-se quatro espécies de afídeos: Aphis gossypii Glover, Aulacorthum solani (Kaltenbach), Macrosiphum euphorbiae (Thomas) e Myzus persicae (Sulzer) e quatro espécies de parasitóides primários: Aphidius sp., Lysiphlebus fabarum (Marshall), Lysiphlebus testaceipes (Cresson) e Trioxys angelicae (Haliday). O maior nível de infestação de afídeos registou-se em Maio e os níveis de parasitismo natural atingiram um pico no mês de Junho (62%). L. testaceipes e T. angelicae foram os parasitóides com maior impacte na limitação da população de A. gossypii, o único afídeo que se comportou como praga.

Palavras chave:Afídeos, Aphis gossypii Glover, cultura protegida, parasitóide, pimento.

Abstract: To evaluate the population dynamics of aphids and the impact of indigenous parasitoids an assay on a protected sweet pepper crop was carried out (April/September 1996), in Torres Vedras (Sta Cruz). Four species of aphids were observed: Aphis gossypii Glover, Aulacorthum solani (Kaltenbach), Macrosiphum euphorbiae (Thomas) and Myzus persicae (Sulzer) and four species of primary parasitoids: Aphidius sp., Lysiphlebus fabarum (Marshall), Lysiphlebus testaceipes (Cresson) and Trioxys angelicae (Haliday). The highest population level of aphids was observed on May and the levels of natural parasitism attained a peack on June (62%). The parasitoids, L. testaceipes and T. angelicae were the species with higher impact on the control of A. gossypii populations, the only aphid species recorded with a pest status.

Key words: Aphids, Aphis gossypii Glover, protected crop, parasitoid, sweet pepper.

INTRODUÇÃO

            A horticultura protegida na região Oeste baseia-se fundamentalmente na utilização de estufas cobertas com filmes de polietileno e sem condicionamento ambiental, sendo o arejamento assegurado por aberturas laterais desprovidas de redes. Estas aberturas permitem a entrada de pragas importantes, nomeadamente de afídeos.

            Os prejuízos que grandes populações de afídeos podem provocar nas culturas levam os agricultores a utilizar produtos fitofarmacêuticos com vista a garantir uma produção económicamente rentável. Contudo, estes produtos nem sempre são utilizados da forma mais racional, por conseguinte, as espécies de afídeos, principalmente as de ciclo curto (com numerosas geracões anuais), cada vez manifestam maior resistência aos produtos químicos, suportando aplicações sucessivas de insecticidas (Delorme, 1996), enquanto os seus inimigos naturais são eliminados (Ilharco, 1992). O conhecimento não só da praga como também da fauna auxiliar torna-se essencial para diminuir a utilização de meios químicos que podem quebrar equílibrios biológicos existentes e imprescindíveis para a limitação natural.

            Este trabalho tem como objectivo estudar a fauna de afídeos e de parasitóides existentes em cultura protegida de pimento, assim como o impacte dos parasitóides na limitação natural de afídeos nestas culturas.

MATERIAL E MÉTODOS

Realizaram-se observações e colheitas quinzenais, na cultura de pimento (Sta Cruz -Torres Vedras)

O critério de colheita de folhas foi o seguinte:

            a) a parcela a estudar foi dividida em 10 blocos, sendo escolhida aleatóriamente uma planta por bloco;

            b) colheita de duas folhas por planta, escolhidas aleatóriamente em dois dos três estratos considerados; no laboratório observaram-se afídeos e múmias para identificação e quantificação; as múmias foram mantidas em caixa com rede fina durante 20 a 30 dias para emergência dos parasitóides e posterior identificação.

As populações de afídeos foram observadas visualmente e quantificadas através de índices de infestação das folhas, observando-se de forma casualisada 8 plantas em 8 linhas (64 plantas).

           

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No Quadro 1 apresentam-se, por ordem alfabética, as espécies de afídeos e parasitóides primários observados em cultura protegida de pimento. No período do ensaio identificaram-se quatro espécies de afídeos e quatro espécies de parasitóides primários.

Quadro 1: Lista de espécies de afídeos e parasitóides primários observados em cultura protegida de pimento.

Afídeo

Parasitóide primário

Aulacorthum solani (Kaltenbach)

Aphis gossypii Glover

Myzus persicae (Sulzer)

Macrosiphum euphorbiae (Thomas)

Aphidius sp.

Lysiphlebus fabarum (Marshall)

Lysiphlebus testaceipes (Cresson)

Trioxys angelicae (Haliday)

           

O afídeo Aphis gossypii Glover foi a espécie observada como praga em pimento, as outras espécies (Aulacorthum solani (Kaltenbach), Macrosiphum euphorbiae (Thomas) e Myzus persicae (Sulzer)) formaram pequenas populações numa fase adiantada da cultura (Fig. 1).  A. gossypii deu origem a um tratamento localizado, no final do mês de Abril, com pirimicarbe, nas plantas mais infestadas; contudo, este tratamento não impediu o aumento do número de plantas com colónias de afídeos, que em 21 de Maio era cerca de 80% (Fig. 1). Este tratamento aparentemente não interferiu com a actividade dos parasitóides primários, visto que nesta data apenas 12% das plantas observadas tinham níveis de infestação superiores a 30 afídeos por folha (Fig. 2).

            Na Fig. 3 observa-se que a presença de parasitóides ocorreu cedo nas populações de afídeos. Lysiphlebus testaceipes (Cresson) foi o parasitóide primário que originou níveis mais elevados de parasitismo, seguido de Trioxys angelicae (Haliday) e mais raramente Aphidius sp. (Quadro 2). L. testaceipes, espécie neártica introduzida em França em 1973 dispersou-se por toda a região mediterrânica (Costa & Starý, 1988), tornando-se num parasitóide habitual de A. gossypii (García & Suárez, 1994). Este parasitóide é a espécie dominante a parasitar afídeos do género Aphis em Portugal; Lysiphlebus fabarum (Marshall) e T. angelicae são as espécies de parasitóides primários que mais frequentemente entram em competição com L. testaceipes para parasitar o género Aphis (Cecílio, 1994). Contudo, L. fabarum raramente foi observado a parasitar A. gossypii. O maior parasitismo inicial de T. angelicae deveria ser estudado pois poderá estar relacionado com um maior potencial de adaptação para as condicões edafo-climáticas registadas no início da cultura.

A infestação de afídeos atingiu um pico durante o mês de Maio, que foi acompanhado pelo aumento de actividade dos parasitóides, o qual veio a contribuir para a limitação da praga. No início de Junho, a mortalidade causada pela fauna natural de parasitóides era cerca de 65% (Fig. 3). A actividade dos parasitóides secundários foi observada desde o início de Maio (Quadro 2). Nesta altura 13% dos parasitóides emergidos das múmias eram hiperparasitóides, valor que atingiu os 82% em finais de Junho. Este valor revela que a presença de hiperparasitóides é um factor limitativo da acção do parasitismo na luta contra a praga de afídeos. Sullivan & Van den Bosch (1971), na California, verificaram que, em múmias de M. euphorbiae (no hospedeiro, Iris germanica L.) recolhidas num ecossistema isento de insecticidas, os níveis de hiperparasitismo podem ser muito elevados (66,5%). Outro factor que pode ser limitativo da acção dos parasitóides é a elevada taxa de reprodução de A. gossypii (van Steenis & El-Khawass, 1995) que se pode reduzir introduzindo dentro da estufa parasitóides primários em número elevado, de forma a diminuir as populações desde o ínicio (Wyatt, 1985). Contudo, deve ter-se em atenção que o momento da introdução do parasitóide deve estar muito bem sincronizado com a ocorrência das populações de afídeos.

 Não foi possível quantificar nas condições do ensaio a contribuição de outros inimigos naturais para o declíneo da população de afídeos observado a partir de Maio (Fig. 3). A observação de larvas de Aphidoletes aphidimysa (Rondani), a partir de 29 de Abril, assim como a presença de larvas de sirfídeos e coccinelídeos, a partir de Junho, parece estar associada ao declíneo da população de afídeos que ocorreu neste mês, podendo evidenciar o potencial dos predadores afidifagos na limitação de níveis mais elevados de afídeos.


 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CECÍLIO, A. (1994). Evolução faunística após a introdução de Lysiphlebus testaceipes (Cresson) (Hymenoptera, Aphidiidae) em Portugal, e o seu interesse na limitação de pragas de afídeos. Bol. Sanid. Veg. , Plagas , 20 (2): pp.471-476.

COSTA, A. & STARÝ, P. (1988). Lysiphlebus testaceipes, an introduced aphid parasitoid in Portugal (Hym.: Aphidiidae). Entomophaga, 33 (4): pp.403-412.

DELORME, R. (1996). Résistance aux insecticides chez les pucerons. PHM Rev Hortic.,  369: pp.29-33.

GARCÍA, T.C. & SUÁREZ, J.B. (1994). Afidos plaga (Homóptera: Aphididae) en cultivos hortícolas bajo plástico. Sanidad Vegetal en la Horticultura protegida. pp.156-178.

ILHARCO, F.A. (1992). Equilíbrio biológico de afídeos. Fund. Cal. Gulb. , 303 pp, Lisboa.

SULLIVAN, D.J. (1989). Natural Enemies. In Minks & Harrewinjn (Eds.), World Crop Pest. Aphids: Their Biology; Natural Enemies and Control: 2B. Elsevier, Amsterdam. pp.171-203.

SULLIVAN, D.J. & VAN DEN BOSCH, R. (1971). Field ecology of the primary parasites of the potato aphid, Macrosiphum euphorbiae, in the East San Francisco Bay Area (Homoptera: Aphididae). Ann. Entomol. Soc. America, 64, pp.389-394.

VAN STEENIS M.J. & EL-KHAWASS K.A.M.H. (1995). Life history parameters of Aphis gossypii: influence of temperature, host plant, and parasitism. Entomol. Exp. Applic. 76, pp.121-131. (cit in VAN STEENIS & EL-KHAWASS, 1996).

VAN STEENIS M.J. & EL-KHAWASS K.A.M.H. (1996). Different parasitoid introduction schemes determine the sucess of biological control of Aphis gossypii with the parasitoid Aphidius colemani. Bull. OILB/wprs – Integrated Control in glasshouse: 19 (1), pp. 159-162.

WYATT, I. J. (1985). Aphid Control by parasitics. In N. W. Hussey & N. Scopes, Biological pest control, the glasshouse experience. Bull. OILB/SROP : pp.134-141.